Assembleia eletrônica no condomínio: como convocar, votar e registrar sem fragilizar a decisão

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A assembleia eletrônica ou híbrida é admitida no condomínio desde que preserve os direitos de voz, debate e voto dos condôminos e siga regras claras desde a convocação até o encerramento. A tecnologia, por si só, não valida a reunião. A segurança da decisão depende de um processo verificável: edital completo, identificação dos participantes, controle das procurações, forma de manifestação, registro dos votos, observância do quórum e ata coerente com o que ocorreu.

Moradores participam de assembleia híbrida com convidados por videoconferência.

O Código Civil permite que a assembleia seja realizada por meio eletrônico quando a convenção não proibir essa modalidade e forem preservados os direitos de voz, debate e voto. A lei também autoriza o formato híbrido, com participação presencial e virtual no mesmo ato. Isso ampliou as possibilidades de participação, mas não eliminou as regras que já valiam para convocação, pauta, quórum e documentação.

O edital precisa explicar como a reunião funcionará

Numa assembleia presencial, o endereço e o horário indicam onde e quando o condômino deve comparecer. No formato eletrônico, essas informações são insuficientes. A convocação deve informar que a reunião será virtual ou híbrida e trazer instruções sobre acesso, manifestação e coleta de votos.

Na prática, o edital deve permitir que o condômino saiba, antes da abertura:

  • qual plataforma ou sistema será utilizado;
  • como receberá ou criará a credencial de acesso;
  • como será identificado e admitido na reunião;
  • como apresentará procuração e demais documentos;
  • em que momento poderá falar, formular questão de ordem ou pedir esclarecimento;
  • como os votos serão coletados e confirmados;
  • como agir em caso de dificuldade técnica;
  • quando a assembleia será instalada e encerrada;
  • se haverá continuidade em sessão permanente, quando essa possibilidade for aplicável.

Essas regras não devem surgir no meio da reunião. Alterar o método de votação depois de iniciado o debate pode produzir desigualdade entre os participantes e dificultar a comprovação do resultado.

Participar não é apenas assistir à transmissão

Uma videoconferência em que parte dos condôminos só consegue ouvir não atende, por si só, ao desenho legal da assembleia eletrônica. É preciso garantir meios efetivos para falar, debater e votar.

No modelo híbrido, o cuidado deve ser ainda maior. Quem está na sala e quem participa a distância integra a mesma assembleia. Os dois grupos precisam receber a mesma informação relevante, acompanhar as manifestações e ter oportunidade equivalente de participar.

Isso exige organização. Uma única pessoa pode não conseguir, ao mesmo tempo, presidir a reunião, conferir presenças, acompanhar o chat, resolver falhas de acesso, organizar inscrições de fala e contabilizar votos. De acordo com o tamanho e a complexidade do condomínio, convém distribuir funções entre presidência, secretaria, suporte técnico e conferência da votação.

Identificação, representação e direito de voto

Antes da instalação, a gestão precisa saber quem está presente, qual unidade representa e se pode votar nas matérias da pauta. A plataforma pode ajudar, mas não substitui a conferência documental.

O cadastro deve distinguir proprietário, coproprietário, procurador e ocupante. Quando houver procuração, o condomínio deve verificar os requisitos da convenção e a extensão dos poderes concedidos. Se a unidade possuir mais de um titular, também é necessário evitar a contagem duplicada do mesmo voto.

O Código Civil estabelece que o condômino inadimplente não pode votar nas deliberações da assembleia. A aplicação dessa regra demanda conferência atualizada e critério uniforme. Dúvidas específicas sobre pagamento, parcelamento, titularidade ou representação não devem ser resolvidas de modo improvisado durante a votação.

O sistema de votação precisa respeitar o quórum de cada matéria

Nem toda deliberação é contada do mesmo modo. Há decisões tomadas pela maioria dos presentes, outras dependem de frações calculadas sobre todos os condôminos e algumas estão sujeitas a requisitos próprios da convenção ou da lei.

Por isso, a ferramenta deve permitir identificar:

  • quem estava apto a votar;
  • a unidade e, quando necessário, a fração ideal correspondente;
  • o sentido do voto;
  • abstenções;
  • o momento em que o voto foi registrado;
  • o resultado aplicado ao quórum exigido para aquela matéria.

Uma enquete genérica que mostre apenas percentuais de “sim” e “não” pode ser inadequada quando a decisão depende do universo total dos condôminos, da fração ideal ou da exclusão de votos sem direito de participação.

Gravação não substitui ata, e ata não precisa reproduzir tudo

A gravação pode servir como apoio ao registro e à solução de divergências, mas não substitui a ata. A ata precisa indicar, de forma organizada, a convocação, a instalação, os participantes ou o critério de lista de presença, a pauta, as deliberações, os resultados e as ocorrências relevantes.

Também não é necessário transformar a ata numa transcrição integral. O documento deve ser fiel e suficiente para demonstrar o que foi decidido e como se chegou ao resultado.

Se houver gravação, o condomínio precisa definir previamente a finalidade, quem terá acesso, por quanto tempo o arquivo será mantido e como será protegido. Vídeo, áudio, nomes, imagens e manifestações podem envolver dados pessoais. A LGPD exige finalidade, necessidade, transparência e segurança no tratamento dessas informações. Gravar tudo e guardar indefinidamente não é, por si só, uma política adequada.

Falha de conexão não anula automaticamente a assembleia

Problemas técnicos podem ocorrer tanto com a plataforma quanto com a conexão individual do participante. Nem toda interrupção torna a reunião inválida. O ponto relevante é saber se a falha comprometeu de maneira concreta a participação, o debate, a votação ou a confiabilidade do resultado.

O art. 1.354-A, § 2º, do Código Civil estabelece que a administração não pode ser responsabilizada por problemas decorrentes dos equipamentos ou da conexão à internet dos condôminos ou de seus representantes, nem por outras situações fora de seu controle.

O edital e o protocolo operacional devem prever como a presidência avaliará situações como:

  • indisponibilidade geral da plataforma;
  • perda de áudio ou vídeo que afete vários participantes;
  • queda individual de conexão;
  • voto enviado e não registrado;
  • ingresso após a instalação;
  • retorno do participante antes do encerramento;
  • divergência entre o painel eletrônico e a lista de votantes.

Uma interrupção ampla durante a votação pode justificar pausa, repetição do procedimento ou adiamento. Já uma falha isolada na internet de um condômino não produz necessariamente o mesmo efeito. A decisão deve ser registrada e guardar proporcionalidade com o problema ocorrido.

Exemplo hipotético

Um condomínio realiza assembleia híbrida para aprovar uma obra. Os presentes no salão votam levantando cartões, enquanto os participantes remotos respondem a uma enquete. Ao final, a ata informa apenas o total de votos favoráveis e contrários, sem relacionar unidades, frações ideais ou procurações.

Mesmo que a maioria pareça clara, a documentação não permite conferir se o quórum legal foi atingido. Para evitar essa fragilidade, o condomínio deveria ter definido antes da reunião um método único de consolidação e produzido relatório capaz de relacionar os votos válidos ao critério exigido para a obra.

Checklist antes de abrir a sala virtual

  1. Conferir convenção, regimento interno e regras legais aplicáveis.
  2. Redigir edital com modalidade, acesso, manifestação, votação e suporte.
  3. Testar plataforma, áudio, vídeo, chat e recurso de votação.
  4. Atualizar cadastro de unidades, titulares, inadimplência e frações ideais.
  5. Definir procedimento para recebimento e validação de procurações.
  6. Preparar lista de presença única para participantes físicos e remotos.
  7. Separar as matérias conforme o quórum exigido.
  8. Designar responsáveis pela presidência, secretaria, suporte e apuração.
  9. Informar se haverá gravação e estabelecer regras de acesso e guarda.
  10. Gerar e arquivar ata, lista de presença, procurações e relatório de votação.

O que a tecnologia deve conseguir provar

A melhor plataforma não é necessariamente a que possui mais recursos, mas a que se ajusta ao condomínio e deixa evidências compreensíveis. Depois da reunião, outra pessoa deve conseguir verificar quem participou, quem votou, como cada resultado foi calculado e quais documentos sustentam a ata.

Assembleias eletrônicas podem ampliar a participação e reduzir obstáculos de deslocamento. Para que essa vantagem não seja acompanhada de insegurança, o processo precisa ser simples para o condômino e rigoroso na documentação. O formato muda; os direitos dos participantes e a responsabilidade de demonstrar a validade da decisão permanecem.

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Luís Pardal

Luis Pardal é fundador da Inspiracom Multicomunicação e idealizador do Síndicos Planning. Atua na criação e articulação de projetos, conteúdo, formação, eventos e relacionamento institucional no mercado condominial e, desde 2022, coordena a Missão Brasileira Síndicos Planning a Portugal. Conheça sua trajetória completa em https://diretoriocondominial.com.br/luis-pardal/.

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